Este post só existe (reforço a negrito) porque encontrei por acaso a imagem que o descreve e não resisiti a dar mais uma vez uns bitaites acerca de um assunto sobre o qual escrevi setenta e três artigos (dei-me ao trabalho de os contar). A esmagadora maioria (80 a 90%) é intragável e até eu tenho alguma dificuldade em entender, os outros vão passando despercebidos e são ignorados convenientemente.
Comecemos, minhas amigas e meus amigos, sentados e confortáveis, porque isto vai demorar um bocado, mas vou tentar não ser uma seca.
Até há pouco tempo tive uma conta no facebook. Foi com suspeição que a abri, mas já que lá estava, achei interessante colocar aquilo como me agradava e mostrar o que considero em mim normal.
Fui expulso da lista de um gajo no 2º dia. Nada que me espantasse. O tipo pareceu-me, nos minutos em que fomos “comuns”, daqueles lingrinhas muito feios, fisicamente deploráveis, com nariz adundo, corte de cabelo miserável, olhos pequeninos e remelosos, e lábios fininhos, que atingiram um determinado estatuto intelectual que os faz pensar que são génios (nada contra, talvez sejam!) e que essa característica impede o comum dos mortais de os contradizer ou contariar. São normalmente patéticos, porque acabam convencidos que se podem mascara de Carmen Miranda nos jantares “alegres” onde saltita até nos foder os nervos, com uns caralhos de plástico na cabeça a imitar fruta, considerando que são o cume do humor (e sobretudo do humor inteligente, para mal do nosso sistema nervoso) e obrigam-nos a achar piada ao facto de serem sempre mais pequeninos do que os outros. Um deste gajos naturalmente não simpatizou comigo. Intelectualmente sou igual ou bem maior do que ele, só que tenho os tomates no sítio. O gajo tem-nos enterrados no cu.
Temos pena.
Em frente.
Ora o que aconteceu depois foi mais merdalhoso. Andava eu a serigaitar por ali, sem muito que fazer, quando dei de caras com um comentário a uma merdice qualquer. Achei o comentário muito agradável, simpático e amistoso e, ao procurar o dono, encontrei um tipo (apenas a foto, porque exactamente como no meu perfil, tinha a restante informação oculta) com um ar simpático e inteligente, era “a cara” do comentário que tinha lido.
Que fez este vosso criado?
Pois escrevi o que pensava: “És um tipo simpático. Gostava de ser um tipo simpático” (foi uma merda assim, sem mais delongas) e desandei. Não esperava ter notícias do tipo. Aquilo foi apenas circunstâncial e de passagem, do tipo “olá, és fixe. Ainda bem que há gente assim.”
Mas tive notícias do tipo, por interposta pessoa. O gajo tinha-me apagado, barrado e banido, fez com que eu não tivesse sequer acesso à fotozinha dele e às merdalhinhazinhas que tinha em privado e foi queixar-se ao amigo comum onde o comentário tinha sido feito.
Então eu tinha tentado o engate! Tinha procurado engatar um homem que é um verdadeiro homem, caralho! Um exemplo hetero a seguir pelo gajedo. Um deus das pitas. Um gajo que é gajo e que não está habituado a que o bichedo lhe dirija a palavra para o engatar com uma frase putalheira como a que usei: “és um gajo simpático”. Um senhor, caralho! e um caralho de um senhor. Um tipo que se iria indignar, envergonhar e espoliar-se nos bons costumes, se visse que a minha página de fotos no facebook tinha quatro ou cinco minhas, a descer e a subir escadas e outra à espera do autocarro, duas ou três de amigos meus, a chegar ao aeroporto, algumas de sítios que gosto em Paris e uma foto de umas cuecas que, segundo parece agora, já devia ter levado a La Redoute ao tribunal por atentado à moral ao publicar umas parecidas. Um gajo não está habituado a trampa do “nosso” mundo, ou seja, de um mundo paralelo ao dele, onde andam bichas e comunistas a comer tipo inocentes, com dentes transformados em pilas e decididos a foder a santa instituição familiar e a versão do santo-macho de que ele, gajo-homem, quer ser guardião e reserva moral. Um gajo que não pode ser “adicionado” por paneleiros, porque “parece mal” e iria confundir as pitas que lhe vão piscando o olhinho do cu. Um homem que vai dar um ralhete ao tipo que permite que o bichedo que o tipo conhece, o incomode com mensagens que lhe parecem obscenas.
Segundo me informam, um paneleiro com as minhas características dizer: “és um tipo simpático” equivale, conforme o lugar, a dizer “Quero dar-te uma queca, caralho!”. Isto é do mais arrogante que há, do mais pulha, do mais hipócrita, presunçoso, mentiroso, preconceituoso, convencido e homofófico que consigo imaginar. É magro, incivilizado, inculto, pobre, limitado e discriminatório, patego e chunga, mas é de verdadeiro homem, foda-se!
Dizem-me então que não estou num País qualquer.
“Hello! Isto é Portugal!”
É miserável!
Chegaste ao aeroporto, em Lisboa? Chegaste à Gare do Oriente? Ok! Podes escarrar para o chão, podes empurrar as bichas drogadas para dentro de buracos e deixar que morram ali sem apelo nem agravo. Podes “barrar” e fazer de conta que estás ofendido porque uma bicha achou que eras simpático, que tens outra bicha a defender-te a honra e a foder o juízo ao infractor. Podes dar às crianças, ao pequeno-alomoço, migas-de-cavalo-cansado, pão embebido em vinho. É Portugal, hello!
Preocupado?!
- Hello! Isto é Portugal!.
É justificar o medíocre. É, no caso que inicia esta lenga-lenga toda, colaborar com a homofobia subterrânea, não imediatamente detectada, que grassa por todo o lado e que é das mais perigosas que existe, porque permite, justifica, impulsiona, torna viável e mesmo invisível, a mais dramática:
Andam a enforcar as bichas no meio da rua?! Hello! É no Irão!
Andam a mutilar as miúdas adolescentes? Hello! É no Sudão!
Andam a apagar páginas na net? Hello! É na China!
Andam a aceitar os casamentos homo?! Hello! É na Holanda!
O que me espantou, e de certo modo desgostou e desiludiu, foi a chamada de atenção, o piçalho que levei, ter partido de um amigo cibernético de quem gostava muito. Um tipo inteligente que me parecia atento a todas as formas de discriminação sexual e a lutar contra elas. Pelos vistos, há que separar o “gado” e recolher o manchado ou o malhado nas cortes mais afastadinhas.
Nas paradas gay, há uma data de tipos a falar de orgulho (uma merda que nunca consegui entender. Não me orgulho de gostar de laranjas ou de destestar alho, caralho). Dizem também estes marmanjos que são eles a dar a cara pelos direitos não sei bem de quem. Pelo que sempre me foi dado ver (sobretudo na última vez, aqui em Paris), sempre achei que em vez da cara, os tipos queriam era dar o cu. Não acredito que desfilar sambodrolescamente pelas avenidas, vestidos de tolas ou praticamente nus, a abanar as ancas, de tangas exíguas, com as pilas desenhadas por collants florescentes, aos guinchos e gritedos, a apalpar o cu uns dos outros, cheios de tusa, empoleirados em carros alegóricos saídos de surrealismos paneleiros, possam representar quem quer que seja e defender direitos seja de quem for. É divertido, carnavalesco, mundano, fixe, catártico, abre a possibilidade a umas quecas do outro mundo, mas os meus direitos não podem, nem devem, nem nunca serão defendidos ali.
Deviam principiar por ser defendidos numa escala menor, minorca, aparentemente inútil e sem lantejoulas. O gajo que me “barrou” no Facebook e que foi queixar-se ao amigo que por sua vez me informou que eu era, talvez, “demasiado atrevido” para permanecer ali, devia ter sido denunciado por homofobia encapotada e caseirinha ou simplesmente ter sido aconselhado a levar no cu para experimentar.
Não foi. Decidi portanto sair e abandonar o chá. Ficou tudo, por ali, normalizado.











